Representante da Unesco destaca papel da educação

Palestra de Vincent Dafourny, Representante da Unesco no Brasil, na solenidade comemorativa aos 127 anos de libertação dos escravos no Estado do Ceará, no Campus da Liberdade, da Unilab, em Redenção, no dia 25 de março de 2011. A palestra teve como tema: Educação, a utopia necessária.

 

Acompanhe o discurso na íntegra:

 

“Diante dos múltiplos desafios suscitados pelo futuro, a educação surge como um trunfo indispensável para que a humanidade tenha a possibilidade de progredir na consolidação dos ideais de paz, da liberdade e da justiça social. Fazemos questão de afirmar nossa fé no papel essencial da educação para o desenvolvimento contínuo das pessoas e da sociedade, não como um remédio milagroso, menos ainda como o ‘abre-te Sésamo’ de um mundo que quer ver realizado todos os seus ideais, mas como uma via a serviço de um desenvolvimento humano mais harmonioso e autêntico, de modo a contribuir para a diminuição da pobreza, da exclusão social, das incompreensões, das opressões, das guerras.”

 

Fiz questão de ler este primeiro parágrafo de Jacques Delors, que foi presidente da União Europeia, mas também foi presidente de uma comissão da Unesco, para analisar os desafios da educação para o século 21, que se chamou Comissão Delors, e que publicou o livro “Educação, um tesouro a descobrir”. Estas palabras introdutórias resumem muito bem a importância da educação para a libertação. A necessidade de reacender uma fé, implacável na educação, para justamente superar os desafios que os povos estão enfrentando. Essa comissão, estabelecida nos anos 90, produziu um relatório muito importante e interessante para a Unesco e para o mundo, com um norte muito forte, que vem apontando algumas direções e que gostaria de compartilhar com vocês.

 

Os quatro pilares da educação, que a Comissão Delors tem desenvolvido, são muito válidos nesse momento, não só da construção, da elaboração da Unilab, mas também para nos ajudar, a todos nós, que temos o papel de educador, a pensar, a refletir sobre o que podemos fazer para nossas crianças, nossos filhos, para os alunos que estão na sala de aula.

 

Vamos seguir este caminho da comissão, na sua lógica. Os quatro pilares são os seguintes. É importante, é fundamental para a educação no Século 21, aprender a conhecer. É indispensável também, aprender a fazer, como tambémaprender a ser, mas é também muito importante, aprender a conviver, a viver juntos. Vou desenvolver estes quatro eixos, que são os pilares para a educação, que podem nortear nossas atividades.

 

O ‘aprender a conhecer’ talvez seja a dimensão, o elemento mais fácil de entender porque todos nós sabemos, nós que passamos alguma vez em uma sala de aula, sabemos que, habitualmente, é a dimensão principal que o professor está dando. É aprender a conhecer e repassar esses conhecimentos, seja da alfabetização, dos cálculos, da ciência, de todas as áreas, e que, por intermédio do conhecimento, se cria a capacidade de se pensar, de se conhecer. E o conhecimento é um elemento muito importante e fundamental, ao ponto de, quando nos referimos às sociedades contemporâneas, sociedades interconectadas com a internet, com a televisão, com jornais, e acessos muito fáceis à informação, se fala, cada vez mais, da construção de uma soceidade do conhecimento. A sociedade hoje, não é mais a sociedade da industrialização, não é mais a sociedade da agricultura, é uma sociedade, cada vez mais, baseada no conhecimento. Por isso, conhecer é fundamental, um prazer, uma satisfação.

 

Este momento milagroso que é um aluno aprender a ler e que, de repente, é capaz de conhecer as letras, as palavras, a dar signficado as frases que estão escritas à sua frente. Aprender a conhecer é, portanto, um pilar a ser destacado. Claro que, o conhecimento hoje, é muito mais complexo. É cada vez mais ligado, a tal ponto que um professor importante também para a Unesco, Edgar Moran, que fez uma palestra em Fortaleza, em setembro de 2010, sobre os sete saberes. Ele desenvolve a ideia da complexidade, da necessidade de ferramentas para enxergar a complexidade do nosso mundo. E a complexidade deste nosso mundo precisa de novas ferramentas.

 

Claro que a matemática, a literatura, a ciência, a biologia, todas as matérias, são muito importantes para dar os primeiros passos. Mas também é um desafio para os educadores fazerem as conexões, que o conehcimento seja muito enraizado também na prática, na vivência dos alunos. Não dá, por exemplo, para aprender a biologia, sem ser no campo, na vida ao nosso redor e que a natureza nos ensina muitas coisas. E, por meio deste fenômeno, recupera-se a velha tradição do conhecimento. Os primeiros pesquisadores, o que fizeram? Começaram a observar a natureza, os fenômenos, e o que estava acontecendo e escreveram teorias, elaborando esses conhecimentos.

 

Esse conhecimento é disciplinar. É muito importante ter este conhecimento de ponta, nas diferentes disciplinas. Aqui, na Unilab, irão ter estas dimensões, de chegar à ponta do conhecimento, mas, ao mesmo tempo, é um elemento importante, dentro desta dimensão, do aprender a conhecer, de fazer as ligações, de conectar os conhecimentos que é uma forma muito disciplinar, para poder desenvolver a compreensão da complexidade do nosso mundo. Estas são as primeiras ideias que gostaria de colocar sobre a dimensão do aprender a conhecer.
O segundo pilar é ‘aprender a fazer’. Bem, aprender a fazer é também fundamental, porque o conhecimento é importante, mas temos de traduzir isto em coisas concretas. Aqueles que fizeram este prédio, aqueles que cultivaram os campos, aqueles que construíram as cidades, arregaçaram as mangas das camisas e começaram a fazer. E fazendo, aprenderam muita coisa. Como exemplo, citamos o Brasil, que está se desenvolvendo a grande velocidade, e tem, cada vez mais, uma economia robusta, mas apresenta uma falta de mão de obra qualificada, pessoas capazes de fazer, que é muito preocupante.

 

O terceiro pilar, ‘aprender a ser’, talvez seja um elemento que tenha muito mais a ver com o reconhecimento do indivíduo, como sujeito do seu destino, do seu desenvolvimento. É claro que, em uma sociedade que aprovou, validou os direitos humanos, que reconhece que todos os seres humanos são iguais, em direitos e deveres, – e, em Redenção é importante destacar que justamente a libertação é o reconhecimento de que o escravo não é mais escravo, não é um bem, é uma pessoa, é um indivíduo, um sujeito de seu destino. A aprendizagem para ser, tem muito a ver com a autoestima, a capacidade de encontrar dentro de si, recursos para criar seu próprio futuro, de uma forma dinâmica. Essa dimensão que é fundamentalmente ética, humanística, é uma dimensão que precisa ser desenvolvida. Os professores e os pais que estão aqui, seguramente, sabem que educar não é só ensinar a ler e escrever. Mas aprender a se compor, é ensinar a se desenvolver como ser humano. O crescimento do indivíduo é algo maravilhoso.

 

Neste sentido, como educador, pois tive a chance de ser professor do ensino médio, e também da universidade, mas tive muitas vezes a oportunidade de encontrar numa sala de aula, de viver estes momentos, onde é possível passar informações, em uma dinâmica, e de observar estes jovens crescerem, literalmente, como as plantas crescem. O educador não é apenas um transmissor, como alguém que lega seu conhecimento para o aluno, não. Creio que o professor é muito mais como um jardineiro, por ser aluno dos seus alunos. Esta, portanto, é uma dimensão que deve ser bem desenvolvida.

 

O quarto pilar, o ‘aprender a viver juntos, a conviver’, talvez seja, nas sociedades modernas, o maior desafio. Não sabemos bem viver juntos. Nossas interações, muitas vezes, são marcadas pela violência, pela incompreensão, pelo preconceito, pela incapacidade de reconhecer o outro indivíduo nas suas características. Por isso, aprender a viver juntos é um projeto de sociedade, um projeto para a humanidade como um todo. Gostaria de explicar como a Unesco entende o aprender a viver juntos.

 

Em 1945, a guerra estava acabando. Uma guerra terrível, que tinha feito milhões de mortos, uma guerra que tinha destruído completamente muitos países. Naquele momento, chefes de estado, intelectuais, pensadores reunidos, pensaram: “não, isso nunca mais pode acontecer. Temos de encontrar mecanismos para que isso não aconteça mais”. Tiveram, então, uma ideia de futuro. Criar, primeiro, um mecanismo para conter as ambições belicosas dos distintos países e criaram na Organização das Nações Unidas (ONU), o Conselho de Segurança, que é o órgão onde os países mais poderosos do mundo se encontram e justamente tentam, de uma forma diplomática, resolver as crises, para evitar as guerras e para proteger as populações. O Conselho de Segurança é muito importante.

 

Estamos vendo, por exemplo, o que está acontecendo na Líbia, que é uma preocupação para o mundo. A ONU, o Conselho de Segurança, tem tomado uma resolução, para proteger a população civil. Claro que pode haver crítica, pois, nem todo mundo deseja uma intervenção. Mas se pensarmos ao longo da história, não há muito tempo, o que aconteceu em Ruanda, em 1994, sob as vistas do mundo, durante 100 dias, pelas câmeras do mundo, nós assistimos a um genocídio. E a comunidade internacional naquela ocasião foi incapaz de raciocinar. Isso foi uma vergonha! Como ser humano deste mundo, me sinto muito triste. Ademais, conhecia Ruanda, fui mais de dez vezes ao país e conhecia pessoas. O que aconteceu em Ruanda foi uma tragédia. E a comunidade internacional, naquele momento foi incapaz de dizer não, aqui isto não pode mais acontecer, temos de parar, seja por algum de tipo de intervenção, de força. No caso da Líbia, vamos esperar o que nos reserva o futuro, mas me parece que o que estava acontecendo na Líbia, havia muita semelhança com o que se estava preparando em Ruanda. Faço aqui uma leitura pessoal, que talvez não seja compartilhada com todo mundo, mas acho que nos leva a pensar sobre o papel da comunidade internacional.

 

Voltando a 1945, os chefes de estado, os intelectuais ao mesmo tempo em que pensavam em mecanismos mais diplomáticos para conter as guerras, disseram que o Conselho de Segurança não era suficiente. Se é verdade que as guerras nascem na mente das pessoas, é na mente das pessoas que devemos erguer as defesas da paz. É, pois, na origem, que devemos criar uma cultura de paz. E isso é o que está escrito no preâmbulo da constituição da Unesco, criada em 1945, justamente para erguer as defesas da paz na mente das pessoas, justamente por meio de um mecanismo muito interessante. Dizia, como a guerra começa lá, precisamos nos compreender, ter uma compreensão mútua entre os povos, saber que todos, o negro, o branco, o indígena, todos têm uma cultura diferente, uma forma de ver o mundo diferente de nós. A Unesco, então, é criada para ser um organismo internacional de cooperação na área da educação, da ciência, da cultura e da comunicação, porque é necessário criar espaços de diálogo, para trabalhar esta compreensão mútua.

 

No iníco dos anos 60, quando a maioria dos países africanos se tornaram independentes, estes novos países entraram como estados-membros na Unesco. E um dos primeiros pedidos que eles fizeram foi: a Unesco tem de nos ajudar a criar nossa própria história. Isto porque, até aquele momento, os livros de história sobre a África, traduziam a história dos europeus. Ou seja, a visão da Europa sobre a África. Uma história que se iniciava com o colonialismo e os países africanos não tinham uma consciência da sua história, já eram desenvolvidos mas faltava uma peça importante de uma história da África.

 

Foi criada, então, uma comissão internacional, com pesquisadores africanos e do mundo inteiro, ao todo 350 pesquisadores, que trabalharam juntos durante três anos, para produzir esta coleção, História Geral da África.

 

Por isso, o primeiro volume trata da metodologia porque um dos grandes problemas foi, exatamente, o de como fazer uma história a partir de fontes que não são necessariamente escritas, que não são colocadas em monumentos, em pirâmides, artesanato de barro que não havia permanência, mas que havia a permanência da tradição oral, que é algo fantástico na África. É uma fonte histórica e isso foi trabalhado metodologicamente durante alguns anos. E para isso, foi feito um trabalho rigoroso, histórico, um trabalho profundo sobre canções, narrativas dos mais antigos.

 

O português é a quarta língua que a coleção foi traduzida. Antes foi escrita em inglês, francês e em árabe e, agora, em português que é única versão, totalmente disponível, graças ao MEC e à Universidade Federal de São Carlos, e fizemos questão de colocar disponível para todos, online.

 

Apesar do lançamento da coleção ter sido feito no iníco de dezembro, já foram feitos mais de 40 mil dowloads da coleção completa, principalmente feitos a partir do Brasil, e também em Moçambique, Angola, Portugal, Estados Unidos, que tem uma comunidade lusófona importante, e estamos muito satisfeitos.

 

Para nós, da Unesco no Brasil, a coleção História Geral da África é a ferramenta a partir da qual vamos poder trabalhar material pedagógico. E estamos convidando todos os pesquisadores africanistas do Brasil e do mundo, a trabalhar a partir deste material. Há muita folclórica, uma visão exótica sobre a África que é um continente muito rico, diverso, que vai do mundo árabe à África do Sul, que não é só um continente negro, mas uma mistura de várias mestiçagens, não é um continente uniforme. Morei na África de Leste que não tem nada a ver com a África do Oeste e outras regiões. É esta diversidade que temos de aprender a trabalhar, fundalmentalmente aprender a conhecer, para podermos explicar o que representa esta riqueza.

 

Que a história na África não começa com o colonialismo, que a história da África são três milhões de anos, que a África é o berço da Humanidade. Tudo começou lá. A África é uma das matrizes fundamentais do Brasil e que o Brasil pode se orgulhar de ter essa origem em seu sangue. É por isso que acreditamos ser importante trabalhar as relações étnicos-raciais. A implementação da Lei 10.639 é uma tarefa muito importante, e é algo que precisa ser desenvolvido, justamente para se aprender a viver juntos, para reconhecer as diferenças, a riqueza da matriz africana, da matriz indígena, da matriz europeia e do seu diálogo.

 

Claro que somos contra a qualquer o racismo e qualquer tipo de discriminação. É importante denunciar mas acreditamos, nós que cremos no papel transformador da educação, que não basta denunciar. Precisamos aprender a viver juntos, aprender a viver com a relações étnicos-raciais, que não é uma tarefa fácil,mas que precisa ser desenvolvida. Por isso, já nos colocamos à disposição, já falamos com o ministro Haddad, com secretários estaduais e municipais, que a Unesco é parceira no Selo de Educação para a Igualdade Racial, e está acompanhando todas as iniciativas relacionadas à implementação da Lei 10.639.

 

Mas, voltando à Unesco e o seu papel importante. Ela demonstra que foi criada para oferecer condições para o diálogo, de uma compreensão mútua entre os povos. Na sala de reunião, da sede da Unesco em Paris, que o Paulo Speller conhece muito bem, porque já esteve lá várias vezes, você vê sentados, todos os países do mundo. Ou seja, o mundo inteiro representado e as pessoas que estão lá, se falam, ‘deixaram as armas no vestuário, se é que assim podemos dizer. Estão lá para tecer algo diferente, tecer um mundo baseado nos direitos humanos, na justiça social, no reconhecimento do outro, na convicção de que é por meio da educação, da cultura, da ciência e da comunicação podemos criar uma cultura de paz.

 

E é dentro deste projeto, que a Unilab também se insere. Por isso, a Unesco acolheu, desde o primeira dia, a ideia da Unilab com muito entusiasmo. A Unilab é justamente uma concretização, em uma lugar muito concreto, aqui, em Redenção, com toda a simbologia que o município representa, mas uma concretização particular, mas muito efetiva. E queremos que seja muito efetiva e vamos cobrar, para que seja realmente um lugar onde os povos africanos e de outros países de língua portuguesa, mas também países de outras línguas e com a riqueza das línguas, vamos poder, talvez, reconstruir alguns laços. Existem, por exemplo, linguístas que tentam reconstruir os laços de algumas expressões, formas de falar no Brasil, com línguas que se falam na África. Ou seja, para reconstruir de uma forma positiva, não mais por meio da escravidão, e Redenção fechou um ciclo, conseguiu superar aquele momento. E, superando aquele momento, continua este processo de libertação, por meio do conhecimento, da educação, do intercâmbio, da compreensão dos povos e entre eles, e por intermédio de uma convivência. É isso o aprender a viver juntos.

 

Gostaria de terminar minha fala, parabanizando Redenção por receber a Unilab, por ter feito, há 128 anos, este gesto, pioneiro, para criar as condições de libertação. Parabenizando também a Unilab por ter tomado essa iniciativa de criar laços concretos, de criar essa ponte. Hoje, precisamos mais de pontes do que de muros e, por isso, queria vir aqui para lançar a pedra fundamental com a coleção História Geral da África e compartilhar com vocês, minha convicção e minha fé, no poder transformador da educação e da compreensão mútua entre os povos para construir uma cultura de paz. Muito obrigado!

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