[Entrevista] Tomaz Santos fala de sua experiência como reitor pro tempore da Unilab

Tomaz Santos (Foto: Assecom/Unilab)

Tomaz Santos (Foto: Assecom/Unilab)

Mesmo dedicando boa parte de seus setenta e dois anos de idade à atividade acadêmico-científica e à política institucional, a experiência como reitor da Unilab foi uma novidade cheia de desafios para o professor Tomaz Aroldo da Mota Santos. “A multiplicidade de abordagens e de estratégias foi uma das coisas que mais me marcou na Unilab”, disse. Docente aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele exerceu o reitorado pro tempore na Unilab de março de 2015 a outubro de 2016, quando solicitou afastamento, tendo sua portaria de exoneração publicada na última terça-feira (7). Em entrevista, ele fala de conquistas, desafios e aprendizados desse período.

Assecom: Em alguns de seus pronunciamentos, o senhor disse que encontrou na Unilab uma realidade muito diferente da UFMG, onde já foi reitor. O que de específico a experiência na Unilab lhe marcou?

Tomaz Santos: Coordenar ao mesmo tempo a universidade internacional, a universidade cearense e a universidade baiana, todas unidas no projeto da Unilab, é de uma enorme complexidade; é bonito e difícil. Essa foi uma das coisas que mais me marcou, essa multiplicidade de abordagens, de atividades, de estratégias. Não há nenhuma universidade no Brasil com o contingente de estudantes internacionais como a Unilab. Há nela uma diversidade cultural e uma pluralidade muito expressivas. Outra coisa foi perceber o significado da Unilab para regiões com um desenvolvimento urbano ainda insuficiente para dar sustentação a uma universidade. Isso me levou à síntese de que o desenvolvimento da Unilab deve se dar em sintonia com o dessas cidades. O terceiro aspecto que me tocou foi perceber, no diálogo com os estudantes, o que a universidade significa para eles, para suas famílias e para suas cidades e países. Eu não tenho dado preciso, mas tenho a impressão que 70 a 80% dos jovens da Unilab sejam os primeiros das suas famílias a estarem numa instituição de educação superior.  A Unilab é uma oportunidade fundamental para eles no sentido de autonomia pessoal e de contribuição para o desenvolvimento de seus países e regiões.

Assecom: Na sua primeira entrevista concedida à Unilab, o senhor afirmou que pretendia pautar sua gestão pelo diálogo com a comunidade acadêmica, entre outros no tocante aos processos de institucionalização. Quais os principais desafios encontrados nesse processo?

Tomaz Santos: A equipe de dirigentes escolhida pela professora Nilma Gomes [reitora pro tempore anterior] me introduziu nos diálogos com a comunidade universitária. À época, a Reitoria estava ocupada e era preciso dialogar com os estudantes sobre a política de assistência estudantil da universidade. Tenho a convicção de que, para o exercício da política – e o cargo de reitor é um cargo político –, há uma regra de ouro que é sempre conversar. Procurar nessas interlocuções encontrar os caminhos, e assim nós tentamos fazer. Para a elaboração e aprovação dos documentos fundamentais para institucionalização da universidade, ou seja, a reforma do Estatuto e a criação do Regimento Geral e do Plano de Desenvolvimento Institucional, as unidades acadêmicas encontraram dificuldade no início em providenciar tantas pessoas para as comissões criadas. Diminuímos o tamanho delas e começaram a funcionar. Todos os três documentos tiveram fase de consulta direta à comunidade, quando tivemos oportunidade de recolher muitas contribuições. Penso que a missão que me foi atribuída foi alcançada e graças também, é bom que se registre, à contribuição de toda a equipe do reitorado, dos diretores e diretoras, do Conselho Universitário, das comissões específicas. Graças a essa participação e cooperação foi possível concluir os documentos, de modo que ao fim a institucionalização, pela via da elaboração desses documentos, foi um trabalho que envolveu a comunidade universitária em seu conjunto.

Tomaz Santos, em cerimônia de colação de grau (Foto: Assecom/Unilab)

Tomaz Santos, em cerimônia de colação de grau (Foto: Assecom/Unilab)

Assecom: A Unilab muitas vezes é procurada para questões referentes ao continente africano. Na sua gestão foram criados o CeiÁfrica, o Festival das Culturas e também foi realizado o curso de capacitação para servidores “Introdução aos Estudos de Cultura e História Africana”. O que o senhor considera importante ser desenvolvido na Unilab para que ela seja cada vez mais reconhecida como uma referência sobre as relações Brasil/África?

Tomaz Santos: Bom, eu penso que será importante consolidar essas iniciativas, para que elas possam gerar os resultados esperados. No caso do CeiÁfrica, ele deve se tornar um centro de referência para quem quiser saber sobre África, obter informações relevantes para desenvolver atividades cooperativas no campo acadêmico-científico, social, cultural. Também no campo econômico, subsidiando, por exemplo, ações conjuntas envolvendo empresários locais e de países da África. Já com o Festival das Culturas, a ideia é que ele contribua para evidenciar as interseções culturais entre brasileiros e africanos, de cada um reconhecer sua cultura na outra. Essas iniciativas, assim como o curso sobre a África, estão em convergência com a ideia da integração, que está no núcleo da denominação da Unilab e que contribuem para a relação da universidade com a comunidade externa. A Unilab deve ser também um espaço físico e institucional que possa revelar diversos modos de pensar, falar e escrever em Língua Portuguesa.

 Assecom: Como o senhor avalia sua trajetória na Unilab?

Tomaz Santos: Eu aceitei o convite para ser reitor pro tempore da Unilab com o intuito de contribuir para a implantação de uma universidade que é um projeto de esperança para uma parte do interior do nosso país. Através desse projeto o Brasil sinaliza no sentido de uma cooperação com os demais países da CPLP no campo intelectual, educacional, cultural, econômico e social. Participar de um projeto tão bonito como esse me convenceu a ir, ainda que isso representasse sair do descanso de professor aposentado. Eu me sinto feliz de ter participado de um projeto tão generoso, mesmo que num período relativamente curto. Em alguma coisa pudemos ajudar.

Assecom: Com seu retorno para Belo Horizonte, quais são suas atividades agora?

Tomaz Santos: Bom… a coisa mais imediata é curtir meus filhos, netos e amigos, e isso é algo que para mim e para minha esposa é uma recompensa da volta. Há uma certa saudade que nós trouxemos para Belo Horizonte, saudade da universidade, do Ceará, dos amigos que fizemos. Pretendo retomar alguns projetos de pesquisa com colegas da UFMG, da Fiocruz em Belo Horizonte, na minha área de pesquisa, que é a Imunologia. Tanto a política institucional como a pesquisa científica sempre me atraíram e eu fiquei sempre pulando de uma para outra. Então eu completo, acho, o meu ciclo de vida política institucional e espero, enquanto a vida me der vida, desenvolver também alguma atividade de pesquisa. Então é isso, aproveitar com alegria o que a vida me propiciar.

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Relatório de gestão do reitorado pro tempore de Tomaz Aroldo da Mota Santos

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