Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
Universidade Brasileira alinhada à integração com os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

Campus dos Malês celebra oito anos de existência e resistência nesta quinta-feira (12/5)

Data de publicação  12/05/2022, 09:08
Postagem Atualizada há 2 semanas
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A existência e resistência do campus dos Malês completa um ciclo de oito anos nesta quinta-feira, 12 de maio, data que celebra a chegada da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) ao território baiano, no município de São Francisco do Conde. Ao longo desse período, o campus dos Malês construiu marcos que incluem a formação de mais de 650 estudantes em seus 6 cursos de graduação, a implantação do primeiro mestrado e impactos na região e países africanos lusófonos, a partir de uma uma formação qualificada de discentes brasileiros e africanos oriundos dos países parceiros da Unilab – Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Angola. 

Confira o vídeo de aniversário do campus dos Malês

Travessia de Guiné-Bissau ao Brasil

                                                                                                                                                                                                       Guineense Aparício Marques Vieira, estudante do curso de Ciências Sociais

Entre esses discentes internacionais que chegaram ao campus dos Malês, em busca de formação, está o estudante guineense Aparício Veiga, do curso de Ciências Sociais. Ele conta que a escolha pela Unilab veio a partir de uma perspectiva de construir um “futuro melhor”. O discente relata ainda que atravessar o Atlântico para desembarcar na Bahia gerou preocupação de ter que se adaptar a uma cidade grande. “Quando vi que a universidade era no interior, comecei a me alegrar”, conta. Aparício também lembra que foi bem recebido e acolhido no município de São Francisco do Conde e na universidade. Nesses oito anos de campus dos Malês, o estudante de Guiné-Bissau celebra a oportunidade de dialogar sobre a realidade da África “para as pessoas tirarem essa visão preconceituosa sobre o continente africano, porque o que a mídia passa sobre África é só guerra e violência”, afirma.

Aparício está finalizando a graduação e já conseguiu vaga no mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde cursa pós-graduação de forma remota, para conciliar com os estudos na Unilab. No período de graduação, ele conta que participou de projetos de extensão e também de pesquisa. Entre eles, o estudo intitulado “Integração sociocultural dos estudantes da Unilab: interculturalidade e dinâmicas da sociabilidade na cidade de São Francisco do Conde”. “Trabalhei com o professor Ismael Tcham o processo de interculturalidade, indo ao encontro com a cidade e não só ficando dentro da universidade. Esse projeto nos dá base para dialogar com a cidade”, conta o estudante.

Ressignificações

                                                                                                                                 Cientista Social e egressa da Unilab/campus dos Malês, Naiane Jesus Pinto 

Nesses oito anos de existência do campus dos Malês, estudantes egressos têm conseguido seguir estudos em mestrados, cujas portas foram abertas a partir de passos iniciais de pesquisa na graduação da Unilab. Entre esses graduados está a cientista social Naiane Jesus Pinto, que ingressou na Unilab em 2014, na primeira turma de Humanidades e de Ciências Sociais, no campus dos Malês. A egressa, que pertence ao Quilombo Dom João, localizado em São Francisco do Conde, relata que faz parte do primeiro processo de expropriação do território Dom João, local onde seus pais viveram. Ela conta que celebra, na sua trajetória na Unilab, as trocas, as experiências com colegas africanos, a aproximação com o continente africano e com as comunidades tradicionais quilombolas – tema que virou seu campo de estudo na graduação e, segundo conta, “ganhou-a por inteira”. 

“A Unilab traz possibilidades não só para São Francisco do Conde, como para o Recôncavo [Baiano] como um todo. É um grande ganho pra nós. A Unilab me permitiu voltar, olhar pra trás e entender o meu passado, para ressignificar o agora; fez esse caminho, esse entrecruzamento, essa encruzilhada na minha relação de pertencimento com o quilombo Dom João, e me possibilitou uma reconexão com esse espaço, com esse território”, conta Naiane, que está no mestrado na UFRB, seguindo estudos sobre comunidades quilombolas. Em sua graduação, ela lembra que em aulas de campo, na comunidade quilombola Dom João, iniciou escrevivências a partir da comunicação e sensações vivenciadas nesse território a qual pertence. “Essa comunicação, do corpo, do território com minha ancestralidade, me permitiu essa reconexão, de voltar e pegar essa força, identidade que é pulsante, latente, tanto que, a partir dessa comunicação, chamei esse espaço de ´território falante´”. O artigo sobre sua escrevivência, na época em que cursava o curso de Ciências Sociais na Unilab, virou referência e, em 2020, foi escolhido como melhor artigo entre estudantes de graduação, no prêmio Lélia Gonzalez.

Abraçar projetos 

                                                                                                                                                                                                      Bibliotecária- documentalista do campus dos Malês, Helka Ramos
                                                                                                                                                                         

Quem também acompanhou o surgimento do campus dos Malês foi a bibliotecária-documentalista Helka Ramos, que chegou à Unilab em 2014, no primeiro concurso para técnico-administrativos em Educação. Ela destaca que o seu trabalho inclui lidar diretamente com o público, com a possibilidade de servir, informar e trocar com a comunidade acadêmica. Helka acredita que, nesses oito anos na Unilab, há o que celebrar. “O amadurecimento pessoal e profissional dão o tom. Aprendi e aprendo muito todos os dias servindo à comunidade. Ser servidora pública tem sido gratificante, o aprendizado é constante e diário”, aponta . O trabalho da bibliotecária-documentalista e dos colegas do setor bibliotecário não se limitou ao espaço do campus dos Malês. A atuação deles chegou até as comunidades do entorno da Baía de Todos os Santos, por meio do “Biblioteca Náutica” (2016-2019) – projeto de extensão que atendeu crianças e professores da rede pública, com objetivo de difusão do acesso à leitura, da contação de histórias e de disponibilização de livros e imagens ligadas à cultura e a histórias locais, afro-brasileiras e africanas.

“O setor da Biblioteca dos Malês abraçou o projeto, que nos permitiu sair dos muros da universidade e ver como a educação chega e quais as necessidades do território. Também é um projeto que pode inspirar as pessoas a participarem da universidade”, conta Helka, que atuou no projeto como capacitadora e no apoio técnico do projeto. Para ela, existe uma capacidade de expandir a atuação do campus dos Malês ainda mais e, nesse ciclo de oito anos, houve avanços. “Ainda somos pequenos mas sempre pensamos grande. Nos estruturamos enquanto campus fora de sede e fortalecemos os Malês no território circunvizinho. Estamos mais conscientes do nosso papel e da nossa responsabilidade enquanto propagadores da educação gratuita e de qualidade. Malês Resiste!”, afirma.

Malês resiste

O campus dos Malês inicia suas atividades de graduação em 2014, ampliando horizontes da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, que nasce no Ceará, em 2010. Para o reitor da Unilab Roque Albuquerque, o campus dos Malês soma forças para proporcionar uma educação transformadora. Ele também destaca que no campus há avanços nos projetos de infraestrutura, de construção de um Restaurante Universitário e de 12 salas de aulas. 

Reitor da Unilab, Roque Albuquerque

“Estamos entrando no cronograma para poder continuar solicitando, clamando pelo nosso prédio acadêmico, administrativo. O Malês é isso, um grito de resistência, ‘Malês resiste’, não no sentido de resistir ao que é bom. O Malês resiste, insiste e ele quer continuar existindo, lutará para isso e fará o que for necessário para continuar como marco e símbolo que é, um símbolo de grandeza da Unilab. Parabéns a toda a comunidade pelos oito anos de atividades acadêmicas, pedagógicas. É com imensa satisfação que podemos celebrar juntos esse momento”, sublinha Albuquerque. 

Marcos de celebração 

                                                                                                                                                                                          Estudantes no campus dos Malês

Os marcos que o campus dos Malês celebram ao longo desses oito anos de existência incluem a formação de 665 estudantes de graduação presencial – nos cursos de Humanidades, Letras, Pedagogia, Relações Internacionais, História e Ciências Sociais – e 94 discentes do bacharelado de Educação a Distância, em Administração Pública. Outro marco é o início das atividades acadêmicas do primeiro mestrado do campus dos Malês (mestrado em Estudos de Linguagens: Contextos Lusófonos Brasil-África), com uma primeira turma cujo perfil é de majoritariamente autodeclarados pretos e pardos. 

                                                                                                                                                                    Primeira turma do mestrado em Estudos de Linguagens: Contextos Lusófonos Brasil-África (Mel-Malês)

“Formamos aqui turmas majoritariamente negras, de filhos e filhas da classe trabalhadora, dos movimentos sociais. Estudantes que historicamente tiveram sonegado o acesso à educação pública”, aponta a diretora do campus dos Malês, Mírian Reis. Ela também destaca que a maioria dos estudantes brasileiros pertence ao território onde está situado o campus. “Estamos em uma zona que sempre foi sombreada dentro da política de acesso ao ensino superior público. Tem todo um território que estava desassistido e que, com a nossa presença, começa a haver um outro vetor de desenvolvimento, principalmente para seus jovens”, pontua a diretora. 

No perfil dos estudantes do campus dos Malês, Reis destaca ainda o fato de que mais de 10% dos discentes se autodeclaram como quilombolas. “Isso diz muito do nosso papel no território. Se a gente considerar que os remanescentes de quilombolas são aqueles que ainda lutam por direito à terra, que eles fizeram produtiva, e que ainda lutam pelas políticas públicas de direitos básicos, a universidade aqui acolhendo e se construindo a partir desse diálogo com as comunidades tradicionais, é também um dever de reparação da sociedade brasileira com essas comunidades”, afirma.

Potencialidades
Ao longo dos oito anos desse processo de construção e reparação, a partir da Unilab/campus dos Malês, surgem histórias que versam sobre reencontros com as origens e as potências. Na formatura de uma das primeiras turmas no campus dos Malês, uma estudante do Recôncavo Baiano fez uma agradecimentos à Unilab e afirmou que, a partir de sua vinda à universidade, ela se “aceitou como gente”. Quem conta essa história é o professor Pedro Leyva, que chegou à Unilab em 2014 e é o atual diretor do Instituto de Humanidades e Letras. 

“Pra mim, esse ‘como gente’ significa se aceitar como ser humano com potencialidade, com a capacidade de fazer ciência, de se ver como qualquer outro ser humano, em qualquer parte do planeta”, afirma Leyva. 

Para ele, a Unilab contribui para um olhar para as próprias raízes em que “o ser humano se encontra, se autorreferencia por sua história. Estou aqui porque tenho uma história, a história de meu antepassado me trouxe até aqui, muitas vezes de sofrimento, outras vezes de luta, de alegria, de canto e festa”, aponta. Nesses oito anos no campus dos Malês, o docente ressalta que celebra três processos que acontecem simultaneamente: a internacionalização, a interiorização e a integração de dois grupos de pessoas – o da diáspora africana e o de pessoas do continente africano – em um único lugar, para uma formação de cidadãos. 

“Não se faz ciência neutra, faz-se ciência para cidadãos, para criar um mundo melhor, mais justo, onde as pessoas possam ser diversas, aceitas e possam criar condições para elas e as futuras gerações. Isso pra mim é o fundamento e a coisa que mais agradeço na vida é estar como professor da Unilab”, coloca Leyva.

Pesquisa e extensão no território

                                                                                                                                                               Apresentação do projeto de extensão Coral da Integração

No campo das investigações científicas, a Unilab/campus dos Malês realizou 234 projetos de pesquisa no seu ciclo de oito anos. Além disso, de 2014 a 2022, foram desenvolvidas, pelo campus dos Malês, 260 ações de extensão, arte e cultura; desse quantitativo, 29 ações estão vigentes. São estudos e atuações extensionistas que conseguem extrapolar os muros da universidade. 

“Aqui acontece uma coisa muito rica, que é o fato de os grupos de pesquisa também abrigarem projetos de extensão. Então a gente sai dos muros do campus e vai para as comunidades, para o território, para outras universidades, através de ações de parceria, e isso vai ampliando nossa rede de alcance e de inserção. Quando penso no projeto de institucionalização do campus dos Malês, penso também em como hoje a gente vai ocupando cada vez mais espaços importantes, junto aos municípios, nos conselhos estaduais e de cultura, por exemplo”, explica Mírian Reis. 

                                                                                                                                                                                                                     Ação de extensão no projeto de combate ao Aedes aegypti

Nesses espaços fora da universidade, aponta a diretora, são levadas para a cena de diálogo e discussão questões ligadas à cidadania, liberdade religiosa, saúde, além de outras pautas no campo de políticas públicas de promoção da igualdade racial e de justiça social, de direitos humanos, das comunidades tradicionais e das populações LGBTQIA +. “Se conseguimos construir tudo isso ao longo desses oito anos, é preciso reconhecer o esforço cotidiano dessa equipe técnica que está aqui. Sem ela, nossos projetos de pesquisa e extensão não aconteceriam e essa excelência no ensino não seria possível. Quem faz essa ginga aqui para tornar esse espaço nosso território, nosso lugar também, é essa equipe e os estudantes, que são a motivação disso tudo“, destaca Reis.

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