Jornalista moçambicana apresentou o livro “Racismo: meio século de força”, no campus dos Malês

A jornalista moçambicana Conceição Queiroz apresentou seu quinto e recém-lançado livro “Racismo: meio século de força”, no campus dos Malês, nesta última quarta-feira (12/08). A vinda da autora à Unilab aconteceu em parceria com o Centro Cultural Casa de Angola. Ela atua no jornalismo na TVI e na CNN Portugal como âncora e repórter. Também trabalhou no grupo Semanário, na Rádio Clube Português e foi diretora de Informação da Televisão de Cabo Verde. Queiroz é uma referência na sua área atuação e recebeu mais de 20 prêmios pelos seus trabalhos jornalísticos, que incluem cobertura em países em situação de guerra, de genocídio e, ainda, em campos de refugiados. Ela é ainda professora da Universidade Católica Portuguesa.

Nesta mais recente publicação, a jornalista, escritora e docente aborda o racismo estrutural através de histórias reais e chama a atenção para a silenciosa dor emocional que tantas vezes acompanha as vítimas. Ela conta que o livro nasceu após uma série de reportagens que realizou sobre o racismo em Portugal. “Não é algo simplista, não é fácil, não é pacífico falar sobre o racismo. É sempre difícil. No Brasil, a luta antirracista está muito mais a adiantada quando nós comparamos à luta antirracista que se faz em Portugal”, disse. “Nós em Portugal e a luta antirracista, nesse momento, nossa maior preocupação é a criminalização do racismo de forma autônoma”, contextualiza. Ainda sobre o livro, ele traz histórias de mulheres e homens negros – inclusive de acontecimentos com brasileiros – que sofreram preconceito racial, incluindo o racismo institucional.

Queiroz aponta que sua atuação inclui erguer a voz contra o racismo, do qual foi vítima diversas vezes, sobretudo no momento em que esteve presente no espaço da televisão e obteve projeção nacional. “Fiz rádio também, estive em jornais, revistas, antes de chegar na televisão. Eu nunca tive problemas”, conta. Ainda segundo ela, “essa projeção incomoda, dificilmente a ascensão social de pessoas negras é tolerada por quem está do outro lado, por pessoas brancas. Nós temos aliados, é verdade, mas é muito difícil aceitá-la”, coloca. Essa tolerância com pessoas negras, aponta Queiroz, acontece até certo ponto, dentro de um contexto de “espírito servil”.

Conceição Queiroz também destacou sobre a necessidade das lutas antirracistas e da sobrevivência de pessoa negras serem feitas em comunidade, com união, aproximações e aquilombamentos. “É uma luta feita em conjunto. Histórias reais que trago aqui [no livro] mostram também a solidão da mulher negra”, aponta. Ela salientou ainda a importância de posicionamentos por parte da população negra para sua sobrevivência – tema que, segundo aponta a jornalista, também foi um dos pontos levantados no livro “Racismo: meio século de força”.

A jornalista chama atenção ainda para o chamado racismo intelectual e que é preciso estar atento à tentativa de apagamento da produção de autores negros. Ela citou o caso de Maria Firmina dos Reis, escritora brasileira do século 19, considerada a primeira romancista negra da América Latina e uma referência na literatura. “Ela foi propositadamente ignorada, apagada e invibilizada”, afirmou.