Autonomia, empoderamento, direitos e saúde da mulher foram temas debatidos no Mulherio Malês, evento que ocorreu na Campus dos Malês, dias 26 e 28/03
Autonomia, empoderamento, direitos, desafios e saúde das mulheres foram alguns dos temas que estiveram no centro da programação da segunda edição do Mulherio Malês, evento realizado nos dias 26 e 28 de março, no campus dos Malês, com participação da comunidade acadêmica da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
“O evento tem nome de Mulherio porque buscar representar a diversidade de mulheres dessa universidade, mas a gente entende que a luta por igualdade, respeito e justiça só acontece com aliança, por isso a presença de homens nesse auditório é muito importante”, afirmou a diretora Mírian Reis, na mesa de abertura do evento.
Ela também contextualizou o evento, que insere-se em um conjunto de lutas coletivas por igualdade de direitos, de acesso e permanência na universidade e escolas, além de igualdade salarial. “Aqui na universidade é o lugar para fazer essa discussão, esse debate, e para fazer esse processo pedagógico de pensar que sociedade nós queremos – que seja antirracista, contrária à misoginia e defensora de direitos”, disse a diretora.
O direito à vida foi destacado pela diretora do Instituto de Humanidades e Letras do campus dos Malês, Eliane Gonçalves, que ressaltou a luta diária contra o feminicídio. “Infelizmente continuamos vivendo numa sociedade que faz com que a gente sinta medo. Então a gente vai continuar denunciando, lutando e dizendo que março é o mês das mulheres, mas o ano todo é tempo de luta para que a gente ocupe os lugares que a gente merece”, apontou.
A primeira estudante mulher à frente da Associação dos Estudantes Africanos na Unilab, Maria Josefa Lopes, discente do curso de Humanidades, na sua fala na mesa de abertura, convocou mulheres a, assim como ela, ocuparem espaços de liderança. “Queria incentivar as mulheres desse campus [dos Malês] a ocuparem os espaços, a se desafiarem, a estarem nos lugares de tomar decisão, e não sempre ficarem no lugar de submissão, de receber ordens”, disse a discente.
A estudante de Ciências Sociais e indígena Elewá Pitaguary, destacou a história de violências com a população indígena. “Ser mulher indígena pra mim é existir em um mundo que sempre tenta nos apagar. Não é uma coisa do passado. O histórico colonialista sempre tenta colocar os povos indígenas como uma coisa do passado e que ficou no passado. E a sociedade ainda nos vê – principalmente as mulheres indígenas – de forma sexualizada, de forma estereotipada, como povos que deveriam desaparecer ou se integrar à sociedade”, afirmou.
Ela também lembrou que a população indígena ainda é vista como “obstáculo ao progresso”. “A gente quer viver fazendo uma ecologia viva e o capitalismo destrói nossos rios, nossas matas e a gente não quer se encaixar na ideia de progresso do homem branco. A gente quer autonomia pra viver das nossas formas”, apontou.
A violência com a comunidade quilombola foi outro tema levantado durante a mesa de abertura do Mulherio Malês, pela docente Naiane Jesus Pinto, que sofreu processo de expropriação territorial no quilombo Dom João. Esse inclusive foi tema de pesquisa de Naiane, que é pesquisadora também de temáticas como racismo ambiental e políticas públicas para a educação escolar quilombola.
Ela graduou-se em Ciências Sociais pela Unilab e atualmente é doutoranda pela UFBA. Ela retorna à Unilab na condição de docente do curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola. “Espero que todas vocês que estão aqui cheguem também a ser professores. Chegamos enquanto discentes e agora como docentes. Que a gente continue trilhando esse caminho, essa trajetória e quero dizer que é possível. Não é fácil mas é possível”, apontou.
A atual secretária de Políticas para as Mulheres (SPM) do estado da Bahia Neusa Cadore. também presente na mesa de abertura do Mulherio Malês, destacou o histórico de movimentos de lutas por direitos das mulheres, a exemplo da Marcha das Margaridas e da Marcha das Mulheres Negras, que debatem, levam demandas e lutam por direitos das mulheres em espaços políticos de poder, onde há uma sub-representação feminina. Cadore traz dados nos quais apontam que, na Bahia, existem 70 municípios onde não há mulheres com assento nas câmaras de vereadores. E, no contexto nacional, essa mesma condição está presente em 700 municípios brasileiros.
“A nossa ausência nesse espaço também prejudica muito no momento em que se pensa políticas, se aprova orçamento e que efetivamente os recursos públicos dos nossos impostos são transformados em atendimento a políticas que tem a ver com nossa vida, com as nossas demandas”, afirma a secretária, que é deputada estadual licenciada e ex-prefeita do município de Pintadas.
Cadore também lembrou das inúmeras desigualdades e violências sofridas pelas mulheres, tanto nos espaços públicos como também privados onde, segundo aponta, 50% das mulheres são mães solos, ou seja, criam filhos sozinhas. Ela trouxe também lacunas nos atendimentos na saúde, dados de assédios sofridos pelas mulheres em transportes públicos e diversas demandas ainda a serem trabalhados por toda a sociedade.
“É muito importante que a gente tenha participação social, tenha debates como esse [na Unilab], onde a gente vai conseguindo cada vez mais fazer a nossa população compreender a luta para a gente promover o bem-viver. A gente quer direito, respeito e, pra isso, a gente precisa de uma aliança, um grande pacto da sociedade e de quem faz política”, coloca.
Saúde das mulheres
O Mulherio dos Malês também abriu espaço para momento de cuidado com a saúde da mulher, por meio de oferta de serviços de saúde como vacinação e aferição de glicemia capilar e pressão arterial. Essas ações foram realizadas em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (São Francisco do Conde/BA). Também aconteceu durante o evento palestra sobre saúde mental e emocional, com a professora Monaliza Mariano.
Outras atividades do evento trouxeram o debate sofre enfrentamento e prevenção à violência contra as mulheres, como a oficina “Oxe, me respeite”, que foi ofertada por integrantes da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), que realiza essa atividade de campanha em espaços escolares. A oficina esclarece sobre diversas formas de violências contra as mulheres- física, patrimonial, psicológica, sexual, moral, além do feminicídio -, e também trouxe o tema da autonomia.
O evento foi finalizado com palestra intitulada “Promoção de Direitos x violência doméstica: é possível?”, com a assistente social e sanitarista Geisa Santana, tutora do Núcleo na Residência Multiprofissional em Saúde da Família pela Escola Estadual de Saúde Pública na Bahia.
Mulherio Malês
O Mulherio Malês insere-se no contexto do “Março Lilás”, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de colo do útero e à promoção da saúde da mulher. Busca dar visibilidade às questões de gênero, raça e classe que afetam as mulheres, especialmente no contexto da Unilab. O evento foi realizado pela Seção de Políticas Estudantis e Direção do campus dos Malês.
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