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Estudante defende TCC sobre comunidade quilombola Alto Alegre na própria comunidade

Data de publicação  28/07/2017, 16:51
Postagem Atualizada há 4 anos
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O estudante Jeovane Ferreira apresentou seu TCC no Centro Cultural Quilombola Negro Cazuza, na comunidade Alto Alegre, município de Horizonte/CE. Foto: Assecom.

O estudante Jeovane Ferreira apresentou seu TCC no Centro Cultural Quilombola Negro Cazuza, na comunidade Alto Alegre, município de Horizonte/CE. Foto: Assecom.

Conhecimento e reconhecimento. Assim foi a manhã desta sexta-feira (28), em que o estudante Jeovane Ferreira, do Bacharelado em Humanidades (BHU), defendeu o trabalho de conclusão de curso (TCC) “Identidade quilombola e territorialidade na comunidade de Alto Alegre/CE: uma reflexão etnográfica sobre os processos de reconhecimento identitário e territorial na década de 2005-2015”. A defesa do TCC ocorreu na sede do Centro Cultural Quilombola Negro Cazuza, no município de Horizonte, contando com a participação da comunidade, de lideranças do movimento negro e autoridades da região. O trabalho recebeu nota dez, com recomendação para publicação.

Estavam na banca a orientadora do trabalho, antropóloga e professora da Unilab, Vera Rodrigues; a professora da Unilab Janaína Lobo, que já foi antropóloga do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra); e a professora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e coordenadora da Coordenação Especial de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial do Estado (Ceppir), Zelma Madeira.

Da esquerda para a direita: Vera Rodrigues, Jeovane Ferreira, Janaína Lobo e Zelma Madeira. Foto: Assecom.

No auditório do centro cultural, cercado de objetos da resistência negra, Jeovane apresentou a pesquisa antropológica, realizada a partir do método etnográfico. “As relações deste trabalho são da academia, mas também do afeto”, conta, relembrando que a família chegou à comunidade em 2002, acolhida após um despejo. “Minhas próprias vivências desde então foram relidas à luz da teoria”, explicita.

Comunidade lotou o auditório e prestigiou o estudante. Foto: Assecom.

Janaína Lobo destacou a qualidade do trabalho e contribuições ao estudo da temática. “Fala da potência das comunidades quilombolas e dobra a invisibilidade. Vai além de outras pesquisas, traçando o percurso dos quilombos desde a África”, parabenizou.

Zelma Madeira também teceu elogios à pesquisa. “Você tem perfil de pesquisador, seu trabalho é rico, soma. Como pesquisadores, não somos inocentes, seu trabalho é político, você está imbricado nessa luta, você quer o reconhecimento da terra, e isso é bom, cada trabalho soma esforço com a nossa luta”, sublinhou.

A professora Vera Rodrigues declarou estar orgulhosa pelo resultado. “Acompanhei o percurso do Jeovane com muito orgulho e carinho. Nada mais justo que hoje viver esse momento com a comunidade, com todo respeito, carinho e protagonismo. Ele é alguém que conhece o significado das palavras ética, justiça e ancestralidade”, finalizou.

Jeovane é o primeiro da família a concluir um curso de nível superior em uma instituição pública. A mãe, Maria Freires, aos 58 anos, está muito feliz. “Eu só tenho ele e é meu orgulho, espero todo o futuro do mundo pra ele”, disse.

Jeovane e a mãe, Maria Freires. Foto: Assecom.

Aos 22 anos, o estudante cursará agora a terminalidade de Antropologia, na Unilab, e pretende fazer o mestrado em Antropologia, parceria da instituição com a UFC. Sobre a ideia de apresentar o trabalho na própria comunidade, ele explica: “Em sete anos de Unilab a gente não tinha tido ainda uma defesa em uma comunidade. A comunidade produz conhecimento e esse conhecimento estamos devolvendo. É gratificante fazer o trabalho que traz a realidade da comunidade, as vivências, escutas, ao mesmo tempo em que a gente também olha para a Unilab e vê o lugar da produção da comunidade quilombola, a produção voltada para o negro no Ceará. Então, a Unilab também é um núcleo de resistência e precisamos, enquanto alunos, trazer discussões de resistência – é isso que eu busco com o trabalho”, declara.

A pesquisa

O TCC trata da história dos quilombos, desde que eram “kilombos”, na África, até os caminhos da resistência negra no Brasil e no Ceará – estado em que se cristalizou o mito de que não havia negros. A trajetória da comunidade de Alto Alegre é contada a partir da existência do Negro Cazuza, cujos bisnetos foram entrevistados para a pesquisa.

Alto Alegre foi reconhecida como comunidade quilombola em 2005. Hoje, são 43 comunidades quilombolas no Ceará e 2.980 no Brasil, segundo a Fundação Palmares. A comunidade, como território dinâmico, enfrenta questões novas: especulação imobiliária, venda de terra por endividamento e situação de extrema pobreza, perda de áreas agricultáveis devido a projetos hídricos. Uma questão para as próximas pesquisas, apontam o estudante e a banca, seria a juventude quilombola e como será continuada a resistência face a novos desafios.

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