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Artigo analisa relação entre surto de ebola e preconceito com pessoas do continente africano

Data de publicação  28/10/2014, 15:33
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O historiador Américo Souza, professor do Instituto de Humanidades e Letras (IHL), da Unilab, publica artigo “Doença deles? Ignorância nossa”, no Jornal O Povo.

DESTAQUE EBOLA

Separados por três séculos, Fançois Rabelais e William Hazlitt tiveram no desprezo pela ignorância um ponto de aproximação. Hazlitt escreveu, no século XIX, “o preconceito é o filho da ignorância”. Rabelais, mais enfático, vaticinara antes, no século XV, que “a ignorância é a mãe de todos os males”.

Um olhar breve sobre a história nos permitirá encontrar vários exemplos de ideias e ações humanas que validam as máximas destes escritores e servem de aprendizado sobre os riscos da ignorância. Em pleno século XXI, porém, o ser humano parece ainda não ter aprendido a lição e se põe disposto a dar nova demonstração de nossa inesgotável capacidade de sermos estúpidos. Refiro-me aqui à forma preconceituosa, portanto ignorante, consequentemente geradora de males, com que estamos lidando com a epidemia de ebola, que já contaminou pessoas em três continentes, África, América e Europa.

O risco de a doença se tornar uma pandemia fez a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitir alertas e promover campanhas de informação e prevenção por todo o mundo. O resultado benéfico destas medidas da OMS é, ou deveria ser, o estimulo à cooperação internacional, melhor chance – diriam mesmo a única – de minimizarmos os efeitos da doença. Todavia, o que se vê é a ameaça de o avanço da doença se tornar argumento de reforço do preconceito para com os povos africanos que, para além de ser algo deplorável em si, pode representar um agravamento do quadro epidêmico.

Exemplo disto foi a forma como a aids tornou-se uma pandemia. Quando os primeiros casos foram diagnosticados nos EUA, nos anos 1980, entre homossexuais, a sociedade, sedenta de novos argumentos para reforçar velhos preconceitos, tratou logo de chamá-la de “câncer gay”, tendo sido inclusive denominada oficialmente como Grid (sigla em inglês para “imunodeficiência relacionada aos gays”). Difundida pelo mundo pelos grandes grupos de mídia, esta ignorante visão levou a crença de que heterossexuais estavam fora do “grupo de risco”. O resultado, sabemos, foi trágico.

Por ter feito vítimas fatais primeiramente e em maior número em países da África Ocidental, o ebola vem sendo difundido como “doença de africano”, “mal de negro”, servindo de reforço ao preconceito racial já tão arraigado entre nós.

Acreditar que o ebola é uma “doença deles” só evidencia a força da nossa ignorância e abre caminhos para a geração de males ainda maiores. Refletir sobre tudo isso e compreender que a epidemia de ebola é um problema de todos nós e que o que deve ser combatido é a doença e não os povos onde ela se manifesta é, hoje, uma necessidade imperativa.

Artigo publicado no Jornal O Povo, em 26 de outubro de 2014

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